Então, decidi parar de escrever. Saí de casa, deixando a porta destrancada. Deixei amigos, amores, colegas, inimigos e a luz de casa. E fugi.
A vida apresentou dificuldades sem precedentes. Escrever sempre foi a salvação e a condenação, a chave e a cela, a pocilga e os Campos Elíseos.
Escrever foi andar de carro com um freio de mão engatado. Uma bomba relógio, onde o que se tem de fazer precisa ser feito antes que se corte o fio errado, antes que a contagem regressiva aponte para o momento em que o gosto se acabou, em que resta nada além de palavras. Morrer é sempre muito bom e muito ruim. Morrer, o ponto final, o momento esperado pelos críticos para que se possa enfim avaliar uma obra. Era arte? Perpetua-se? Faz algo tocar em nós? Uma reverberação inominável que passaremos os séculos tentando enunciar?
A morte foi sempre um alívio para aquele que precisa escrever. Uma escrita que não está aí para provar coisa alguma, uma escrita na qual o escritor deve, pouco a pouco, apagar-se, transformar-se em puro estilo.
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Enganado desde o começo. Porque ser escritor é dizer algo e saber dizê-lo. Há quem saiba dizê-lo mas não saiba o que dizer. Há quem tenha o que dizer e cujas as palavras não vibrem as cordas da alma. Eu mesmo nunca soube o que dizia. Tinha uma vaga certeza de que o que dizia, dizia respeito a cavernas e luminosidades inexploradas. Mas também revia em livros coisas que eu mesmo poderia ter dito, e também coisas que eu tinha de fato dito, e que estavam escritas de modo muito mais belo e claro e convincente.
Escrever é respirar, disse alguém á minha direita. Não há talento sobrando, diz outro à minha esquerda. A pena é o cinzel do escritor.
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Você quer que te compreendam? Você quer que uma garota leia teu livro daqui a mil anos e, e sinta vontade de te declamar? Você imagina a beleza dessa imagem, dessa linda garota chorando pela sua alma, repetindo para todos que vocês se desencontraram no tempo?