Depois da ultima linha, ela permitiu que seus olhos se mantivessem
abertos enquanto as últimas peças do quebra-cabeça se encaixavam perfeitamente.
Um rosto inexpressivo imergido em transe, e então seu olhar começou a vagar
pelos outros clientes da cafeteria.
Me procurando.
Finalmente tentando me encontrar.
Ergui minha xícara,
dei um último gole no café expresso com os cotovelos na mesa. E pude sentir
quando ela me achou.
A olhei sem nenhum
mistério e ela enfim se deu conta da verdade. Eu sempre estive por perto: na
livraria, no parque, no prédio ao lado olhando pela janela... atrás de cada
página que virava, de cada palavra que lia. E agora eu estava ali, com minhas
íris azuis grudadas na feição paralisada dela.
Como eu esperei por
isso...
Pelo medo, pelas
lágrimas quererem aparecer entre as pálpebras mas serem barradas por aquele
sentimento. A vontade de ser quem realmente quer, de libertar o demônio que
passou tanto tempo se abrigando no que ela pensava ser sua imaginação.
Infelizmente ninguém fez isso por mim, ninguém me mostrou como eu realmente
sou: sádico, rápido, impiedoso e certas vezes recíproco. O que incrivelmente,
por dentro, ela sempre foi.
Eu não queria apenas
contar a minha história; meu objetivo era fazer com que ela conhecesse o que
não sabia sobre si mesma.
E ela vai me ver
sair e vai me seguir, mas não porque eu sou o único que pode lhe estender a
mão. Mas porque eu sou aquele que vai libertá-la para o mundo, de uma vez por
todas.
Vai ser divertido.
Mais tarde, o corpo
de um jovem apodrecerá numa lixeira qualquer. E quando o acharem, encontrarão
meu diário também, mas não saberão quem o matou. Nós saberemos.
Afinal, somos
assassinos. E o caminho será longo a partir daqui.