Desde que deixei de te amar
Ando confuso
Palavras vão e vem
Como as pessoas ao meu redor
E a minha vida de disco arranhado
Insiste em tocar sempre a mesma melodia
No decompasso do coração
O meu impulso enfraquece
Como a vela que sibila
Ao menos sinal de esperança
Uma batida mais forte poderia
Reavivar a minha vida
Quantas faixas faltam para o grand-finale?
Quantas voltas são necessárias para a ultima canção?
Se tocasse todas as musicas de trás para a frente
Se eu entoasse todas as letras como uma mantra suicida
Se eu desejasse todos os sonhos
em códigos binários e em notas musicais
Os meus sentimentos decifrados em altos e baixos
Todos os meus amores em longos e breves
Toda a minha vida em curto e contínuo
Em que rotação deveria tocas a minha sinfonia de notas dissonantes?
Uma resposta em beijos desmedidos
Uma intenção de felicidade em ingênuas carícias
Uma volta
Mais volta
Outra volta
Para onde foi a minha grandeza?
Fumaça a rodopiar no ar viciado
Copos vazios em bocas amargas
Onde foi para a infelicidade que estava sentindo?
Fatalidade. A água que inundava os meus olhos
Onde foi verter tanta desesperança?
Amanhã, uma vida
Um novo amor
Da velha melodia esquecida
Não mais confuso
Não mais amado
Não sonhado
Não sentindo
Como as idades tateadas em círculos
Do sulco profundo de cada alma
Tudo no intervalo,
Enquanto toca mais um vez
Essa musica que me fez te amar
E que agora me deixa confuso.
XVIII - Fernando Pessoa
Li hoje quase duas páginas
De um livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem,
E que as pedras têm alma,
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E as pedras se tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber sobre as flores, e pedras e rios,
Para falar do sentimentos deles.
Falar das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a deus que as pedras são só pedras,
E os rios não são senão rios.
E as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos,
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
Não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro,
Senão não era a Natureza.
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