XVIII - Fernando Pessoa

Li hoje quase duas páginas 
De um livro dum poeta místico, 
E ri como quem tem chorado muito. 

Os poetas místicos são filósofos doentes, 
E os filósofos são homens doidos. 

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem, 
E que as pedras têm alma, 
E que os rios têm êxtases ao luar. 

Mas flores, se sentissem, não eram flores, 
Eram gente; 
E as pedras se tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras; 
E se os rios tivessem êxtases ao luar, 
Os rios seriam homens doentes. 

É preciso não saber sobre as flores, e pedras e rios, 
Para falar do sentimentos deles. 
Falar das pedras, das flores, dos rios, 
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos. 

Graças a deus que as pedras são só pedras, 
E os rios não são senão rios. 
E as flores são apenas flores. 
 
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos, 
E fico contente, 
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
Não a compreendo por dentro 
Porque a Natureza não tem dentro, 
Senão não era a Natureza.