— Não quero julgá-lo — ela disse. Cruzou os braços e encostou-se na janela. — Eu simplesmente não entendo. Por que você nos escreveu? Por que enviou todos aqueles presentes? Por que não pegou esse fogo branco da lua e foi com ele para onde queria?
— Mas para onde eu deveria querer ir? — eu disse. — Para longe detodos aqueles que eu conhecia e amava? Eu não queria parar de pensar em você. Eu fiz o que quis. — eu disse.
— Então a consciência não desempenhou nenhum papel nisso?
— Se você segue sua consciência, você faz o que quer — eu disse. — Mas foi mais simples do que isso. Eu queria que você tivesse a riqueza que lhe dei. Queria que você... fosse feliz.
Ela refletiu durante um longo tempo.
— Você gostaria que eu esquecesse de você? — indaguei. A pergunta soou rancorosa, raivosa.
Ela não respondeu de imediato.
— Não, claro que não — ela disse. — E se fosse o contrário, eu tampouco jamais teria esquecido de você. Tenho certeza disso. Mas e os outros? Eu não ligo a mínima para eles. Nunca mais vou trocar uma palavra com eles. Nunca mais colocarei meus olhos neles.
Concordei com um aceno de cabeça. Odiava o que ela estava dizendo. Ela me assustava.
— Não consigo superar a idéia de que morri — ela disse. — De que estou totalmente isolada de todas as criaturas vivas. Posso sentir gosto, posso ver, posso sentir. Mas sou como uma coisa que não pode ser vista, que não pode gostar das coisas.
— Não é bem assim — eu disse. — E quanto tempo você acha que vai suportar, sentindo, tocando e provando, se não houver amor? Se não houver alguém com você?
A mesma expressão de quem não está entendendo.
— Oh, por que me dou ao trabalho de lhe contar isso? — eu disse. — Eu estou com você. Nós estamos juntos. Você não sabe como era quando eu estava sozinho. Não pode imaginar.
— Eu estou perturbando você e não quero isso — ela disse. — Conte a eles o que quiser. Talvez você consiga de alguma forma inventar uma história convincente. Não sei. Se quiser que eu vá com você, irei. Farei o que você me pedir. Mas tenho mais uma pergunta para você.
Ela abaixou a voz:
— Com certeza, você não tenciona compartilhar esse poder com eles?!
— Não, jamais.
4 de agosto de 2010, 03:11:14