Por detrás do vidro, a noite era mais bela. Não sentiria nada, pois lá dentro se encontrava aquecida o bastante. As estrelas se foram, pensou. Talvez elas não aguentassem esse tempo extremamente frio e se deslocaram para um lugar mais confortante. E cálido.
De repente veio-lhe uma frase, mas logo vieram outras. E outras mais, num composto de palavras sem sentido deveras desordenado. Preciso escrever, disse finalmente após quase um dia inteiro sem que nenhuma palavra saísse diretamente de sua boca. Partiu em busca de um papel e de qualquer outra coisa que lhe permitisse escrever nele.
Porém antes da primeira linha algo dizia-lhe para fitar o céu outra vez. E lá estava: uma pequena bola de fogo brilhando a milhares e milhares de quilômetros, abandonada em meio ao deserto turvo de nuvens. Sob a solitária estrela chisparam seus olhos pesados. E estes, ao caírem de frente para a folha em branco, perceberam que nada haveria para se escrever ali. Nenhuma frase, nenhuma palavra. Ergueram-se de volta ao astro da noite, como se apenas estes tivessem permissão para observá-lo.