Talvez ela não tenha ficado.

Caminhei pela pista de dança sem muita velocidade. Todos se balançando ao som da música agitada que tocava, esta que nem lembro se conhecia. A maioria estava sorrindo, pareciam confortáveis. Separados em corjas poucos distantes umas das outras, pois o espaço do salão não era amplo. Muitas luzes piscando; muitas cores sobre meus olhos. Eu mal conseguia enxergar o rosto de meus convidados. Mas creio que eram todos conhecidos.
- Feliz Aniversário! - exclamou altamente um rapaz de cabelos louros, sua mão agarrando meu braço pálido fortemente, assustando-me naquele momento. Se ele não tivesse me virado as costas logo após o voto, certamente o teria reconhecido.
Isso nem me importava mais; quem eu queria ainda não havia chegado. Ela não disse que viria, mas eu a estava esperando. Nada me interessava ali, nem a roupa que eu estava vestindo. Então resolvi subir escadas até a portaria. Queria ver quantos livros eu já havia ganhado.
A pequena mesa estava completamente lotada, não tive condições de contar quantos tinham. O caderno onde convocados assinavam sua presença estava exatamente no meio deles. Títulos e mais títulos, novos e antigos, de diversos autores e gêneros. Todos empilhados um acima do outro. Certamente que fora uma ótima idéia escolher um só tipo de presente.
Passei meus orbes por algumas obras que estavam à vista; a primeira de cada porção que ali foi montada. Até que, enfurnada entre uma pilha e a parede, encontrei uma perdida. O papel pardo em sua volta a separava das demais. Parecia solitária. Retirei-a da embalagem e ao ler sua capa, tudo em volta inquietou-se.
Li o título mais uma vez, certificando-me de que não estava imaginando coisas. Aparentava ter umas duzentas folhas. Lindas letras prateadas em couro preto nomeavam aquele conjunto de palavras que por tanto admirei. Eram as palavras dela, que a partir de então eu sempre as teria por perto.
E na página de guarda, uma dedicatória em manuscrito. "Com amor, para a minha pequena." Lacrimejei, sorrindo levemente, de imediato me perguntando se aquilo tudo era verdade.
Ao levantar a face, voltei a ouvir todos os sons que haviam se cessado após o abrir do pacote. Abracei o livro fortemente, meus passos eram largos embora eu estivesse tremendo demais para perceber. Corri desesperadamente até as escadas que subi a pouco. Olhei aquela multidão espalhada por todo aquele espaço. Eu deveria ter perguntado aos seguranças se alguém já tinha ido embora, mas não fiz. Eu queria muito que ela estivesse ali.
E quando eu estava descendo os degraus com toda aquela pressa, prestes a pisar sobre o chão encerado da pista novamente, na esperança de encontrá-la enfurnada num canto como havia encontrado sua obra...

Eu acordo. Minha mãe está reclamando sobre porta do apartamento ter passado a noite sem o giro da chave. Olho para a janela. A luz entra em meus olhos e eles ardem. Eu queria que ela estivesse nauquela festa. Eu queria que ela tivesse ficado. Por mim.

The Lápis

Onde se enfiaste, maldito desenhador?!
Procuro-te há mais de uma hora
Não te atrevas ir embora
Sem ao menos me rabiscar algo.

Preciso dos teus serviços
Ao menos por hoje, amanhã e depois
Farei mais que apenas um verso
Naquele pedaço de folha que rasguei em dois

Oh Sr lápis, não me abandone
Pois sem sua cor, jamais conseguirei
Passar aquilo tudo para o sulfite
Aqueles traços que imaginei

Grite, uive, mostre-me uma pista
Agora que olhei para a mesinha, te pergunto
Como pude perder-te de vista?
Da próxima vez, esvreva-me um bilhete.