[...]

— Ah! Hermínia, não há muito o que ensinar, você sabe muito mais que eu. Que
pessoa interessante você é, mocinha! Em tudo e por tudo você caminha à minha
frente. Significo algo para você? Não a aborreço?
Olhou para o chão com olhos sombrios.
— Não me agrada ouvi-lo falar assim. Você se esquece da noite em que, desesperado pelo tormento e a solidão, cruzou por meu caminho e nos tornamos bons amigos? Por que imagina que pude conhecê-lo e compreendê-lo então?
— Por que, Hermínia? Diga-me!
— Porque eu sou como você. Porque estou tão só e amo tão pouco a vida, as pessoas e a mim mesma quanto você; e, como você, não posso levar nada disto a sério. Sempre houve pessoas assim, que exigem da vida o que ela tem de mais alto e não podem conformar-se com sua estupidez e crueldade.
— Oh! você! — exclamei, profundamente admirado. — Compreendo-a muito bem,
minha amiga; ninguém a compreende melhor do que eu. E, no entanto, continua a ser um enigma para mim. Você brinca com a vida, tem uma prodigiosa afeição pelos pequenos detalhes e prazeres, é uma espécie de artista da vida. Como pode sofrer na vida? Como pode duvidar?
— Eu não duvido, Harry. Mas quanto a sofrer na vida, disso tenho muita experiência. Você se surpreende por eu ser infeliz e conseguir dançar e estar tão segura de mim nas coisas superficiais da vida. E eu, meu amigo, me surpreendo por sabê-lo desiludido da vida sendo capaz de dominar tão profundamente as mais belas coisas do espírito, da arte e do pensamento! Eis por que fomos arrastados um para o outro e por que nos fizemos irmãos. Vou ensinar-lhe a dançar, a brincar e a sorrir, e ainda assim permanecer infeliz. E você me ensinará a pensar e a saber, e ainda assim permanecer descontente. Sabe que somos ambos filhos do demônio?
— Sim, isto é o que somos. O demônio é o espírito, e nós, seus filhos desgraçados. Saímos da natureza e caímos no vazio...
[...]

Mesmo que eu dissesse, não adiantaria

Isso, grite mais. O dia que ficar você sem sua potente voz será aquele em que eu poderei acreditar em deus. Já estou surda de tanta falação. Exato, sou uma mera retardada que não entende as suas ordens. E realmente, não me vale tanto assim obedecê-las. Poderia, por obséquio, calar essa sua maldita boca? Estou tentando escrever. Espere, faça melhor, continue. Me deixe ter cada dia mais certeza de que meu tempo por aqui está se esgotando. E aproveite enquanto tem alguém em que possa descontar todo o seu stresse. Quando estiver só você e as paredes, verá como elas são diferentes de mim.